Páginas

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Plano de Bairro da Vila Pompeia



Moradores e organizações de bairro da Vila Pompéia estão promovendo nesses primeiros dias de 2013 uma iniciativa de grande valia. Uma semana de atividades entre moradores e simpatizantes da nossa querida Vila, visando o compartilhamento de ideias, vivências e desejos para o bairro. Um conjunto de ações em formato de oficinas com a participação aberta a todos os moradores e interessados em discutir o bairro, falando de suas histórias e enfrentando juntos os desafios que se apresentam numa região em constante mudança, geradas pela especulação imobiliária desordenada. 

A “Pompeia Que Se Quer” pretende gerar um detalhado diagnóstico dos principais interesses, problemas e desejos das pessoas, ficando seu resultado à disposição de todos. Moradores, ex-moradores, cidadãos de São Paulo que conhecem e amam esse pequeno pedaço da cidade e quem mais estiver interessado podem se expressar, participar das oficinas, se mobilizar para construir a relevância dos seus temas de interesse. Essas propostas, organizadas por temas e territórios, constituirão o Plano de Bairro da Pompeia, que será entregue ao prefeito Fernando Haddad e aos vereadores de São Paulo para apoiá-los na revisão do Plano Diretor da Cidade.

Dentre as atividades programadas, destaques para a Horta Comunitária, realizada no sábado, dia 12 de janeiro de 2013, com orientação Átila Fragoso, que reuniu (e vai continuar reunindo) moradores na rua Francisco Bayardo. Nesse encontro, além de apresentar conhecimentos sobre o cultivo de hortaliças, mostrou-se a importância e o sentido da vivência comunitária no meio urbano. Outra atividade com bastante procura foi o Passeio Fotográfico, que contou com a colaboração do fotógrafo Paulo Preto no domingo, 13 de janeiro, reunindo amantes e profissionais da fotografia que percorreram a Vila Pompeia registrando cenas e prédios, para a preservação da memória do bairro, colhendo material  de valor afetivo, revelando o olhar dos próprios moradores e visitantes da Vila Pompéia. O material desse passeio vai integrar uma exposição fotográfica. Ainda, dentro das atividades da semana, teremos a oficina Diálogos Maduros com a coordenação de Camila Doretto, resgatando vivências e histórias de antigos moradores e a aguardada oficina de Plano de Bairro no SESC Pompéia, mediada por Henrique Parra Parra, que vai dialogar com políticos, autores de planos urbanos semelhantes em outras regiões da cidade. Enfim, pessoas se mobilizando, voluntariamente, querendo construir uma vila Pompéia melhor.




sexta-feira, 26 de outubro de 2012


Afinal, de quem é a rua Engenheiro Stevenson em São Paulo?

Na condição de colaborador de um projeto musical, onde eu sou o responsável por captar imagens do projeto da cantora e compositora Olivia, em que a artista se apresenta cantando e tocando violão nas ruas da cidade de São Paulo acompanhada pelo músico Luca Batista, me vi numa situação inusitada. Hoje, dia 26 de outubro de 2012, o projeto que não vende CDs, ou pede contribuição monetária alguma, teve como palco a rua Engenheiro Stevenson, na Água Branca. Ocorre que hoje, neste endereço não passa mais automóveis, virou um boulevard mantido pelo Shopping West Plaza. Até aí, tudo bem, afinal, quem pode se opor a uma área agradável como essa?

Mas meu questionamento, que dá título a esse texto prossegue, pois lá estava eu com a câmera de gravação na mão quando fui abordado por uma agente de segurança do shopping dizendo que eu não poderia gravar coisa alguma ali, por ser área particular. Achei estranho e depois de uma rápida conversa eu já estava no 5º andar do prédio do West Plaza conversando com uma senhora da administração (ou seria do marketing?) chamada Sonia que me disse que era proibido gravar ou fotografar “dentro” do boulevard. Insisti dizendo que eu nada fazia além de registrar imagens de dois artistas numa rua da cidade, como nas outras vinte ocasiões semanais desse projeto. Ainda lhe disse que não captava o público, eventualmente presente, e sequer apontava minha câmera para as dependências particulares do aglomerado de lojas.

Com certa relutância, depois de uma civilizada conversa, ela “permitiu” que eu fizesse as imagens desde que não gravasse a fachada do prédio ou qualquer cliente (?) do shopping. Neste momento lembrei que no meu trabalho de fotógrafo, já me solicitaram uma imagem deste mesmo prédio, por conta de um problema com seu alvará de funcionamento, coisas da desastrosa administração Kassab, e naquela ocasião também fui abordado por seguranças que foram até a praça Souza Aranha tirar satisfações comigo do por que fotografar a fachada do West Plaza. Ou seja, é uma orientação do shopping tentar impedir que mesmo a partir de um espaço público, as pessoas registrem imagens desse prédio. Há uma grande confusão aí. Todo cidadão pode gravar ou fotografar qualquer prédio da cidade desde que haja algum contexto  jornalístico ou de caráter não lucrativo (exceto áreas de segurança pública). Um exemplo; se o prédio apresenta algum problema estrutural e oferece risco ao cidadão na calçada, é um fato jornalístico, e como tal, passível de ser documentado, como um incêndio, também. Outro exemplo, se há uma manifestação popular, na rua, de protesto ou mesmo de caráter cultural e os manifestantes se encontram na frente do prédio, não há instrumento legal que impeça o trabalho de um cinegrafista ou fotógrafo, ou mesmo de um radialista citar o nome do West Plaza como referencial do evento. Se isso acarreta valor positivo ou negativo ao empreendimento é um problema exclusivamente deles. Não havendo portanto possibilidade alguma de cercear a liberdade da imprensa ou do munícipe.

Voltando à conversa com a senhora Sonia, aleguei que não estava interessado em invadir a privacidade dos clientes nem expor as dependências do West Plaza. Ao final, desci e fiz aquilo que era, no meu entender, um direito, gravei a intervenção artística naquela rua sem prejudicar ninguém. Algumas perguntas ainda ficam no ar. Se um pedestre é assaltado no boulevard da rua Engenheiro Stevenson, ele deve comunicar à polícia ou dirigir-se à administração do West Plaza para se queixar? O Shopping se responsabiliza pelos danos do pedestre por estar nas “dependências” do West Plaza, ou a rua em questão só pertence ao shopping quando interessa? Quem concedeu e de que forma ocorreu (se é que ocorreu) essa transferência da rua pública para a iniciativa privada? Essa suposta transferência de domínio, pode ser solicitada por qualquer empresa particular, desde que ofereça alguma contrapartida ao município? E qual seria essa contrapartida? Apenas a urbanização e manutenção do espaço? Qual a vigência desse acordo? Quanto lucra o Shopping com essa apropriação da rua? Vale a pena para o município? Para o West Plaza, é evidente que é muito interessante ter essa área sob seu controle, por mais que lhe acarrete gastos com sua manutenção. E finalmente, por conta de exercer o controle da rua, pode o Shopping West Plaza abordar um cidadão nesta rua com o discurso de que  ele esta em espaço privado?

sábado, 29 de setembro de 2012

São Paulo e as eleições de 7 de outubro de 2012

No dia 7 de outubro ocorrem as eleições municipais em todo o Brasil. Em São Paulo, como nos demais 5563 municípios serão escolhidos também os vereadores das cidades. Tão importante como escolher bem seu candidato à prefeito devemos escolher um bom vereador, pois através de sua atuação, poderemos ter mais força dentro da engenharia política que administra nossa cidade. Muitos candidatos em São Paulo receberam em 2008 doações para suas campanhas vindas do setor imobiliário. Comprometidos com essas empresas, votaram a favor da descaracterização dos bairros em diversas ocasiões. Muitas favelas queimaram nessa cidade, em incêndios suspeitos. Diversos locais desejados pela especulação imobiliária foram alvos desses incêndios. A CPI montada na Câmara para apurar essa enorme "coincidência" conta com vereadores comprometidos com essas empresas, através da tal doação de campanha. Resultado: A CPI é uma farsa e nada acontece, como alertou a matéria da revista Carta Maior: 

"Todos os membros da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) montada na Câmara Municipal de São Paulo para investigar os incêndios em favelas são financiados por empresas ligadas à construção civil e ao setor imobiliário. Juntos, os seis membros da comissão receberam na eleição de 2008, mais de R$ 782 mil, segundo as prestações de contas apresentadas à Justiça Eleitoral." (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20990&alterarHomeAtual=1)

Mas a ação desses vereadores e de outros tantos, não para por aí. Operações Urbanas, Concessões Urbanísticas, e diversas ferramentas para favorecer o capital das empresas que destroem/constroem a cidade foram votados a toque de caixa. E não há nada que nos mostre mudança nesse cenário para a próxima legislatura, a menos que mudemos os personagens, pois muitos tentam a reeleição.  Portanto, considere desempregar um vereador no próximo pleito, especialmente os membros dessa famigerada CPI: Ushitaro Kamia (PSD), Toninho Paiva (PR), Anibal de Freitas (PSDB), Edir Sales (PSD) Ricardo Teixeira (PV) todos ligados ao pior prefeito da cidade de São Paulo, a criatura deixada na prefeitura por José Serra, Gilberto Kassab, que neste ano eleitoral, devolve o favor colocando a máquina municipal à disposição do tucano. Mas não são eles os únicos culpados pelo caos urbano que tomou conta dessa cidade. Boa parte dos atuais vereadores trabalham em causa própria atendendo as solicitações do setor imobiliário. Promovendo a desordem no trânsito, a piora dos índices de qualidade do ar, degradação das áreas verdes, poucos investimentos em creches, escolas, postos de saúde, a destruição do patrimônio arquitetônico entre outros fatores.A cidade de São Paulo não pode continuar a ser vista como um canteiro de obras das construtoras e a verticalização predatória precisa ser estancada. Um município complexo como o nosso precisa de políticas públicas em diversos setores, e ficar à merce dessas empresas não nos favorece em absolutamente nada.


sábado, 28 de julho de 2012

Bairros agonizam em São Paulo


O que falamos há anos, chega agora aos grandes jornais...

Empreendimentos mudam identidade dos bairros de SP

Especialistas alertam para descaracterização de partes da cidade; 'Hoje na calçada só tem segurança de preto', diz morador do Paraíso


Ao chegar ao trabalho numa manhã, o comerciante José Carlos Saba, de 60 anos, percebeu que um quarteirão inteiro havia sumido a poucos metros de seu negócio. Das antigas casas, restavam apenas alguns escombros e muito entulho, como se alguém tivesse jogado uma bomba no local. Dono da lanchonete New’s, há 40 anos na região, e mais recentemente de uma padaria, ambas no Paraíso, Saba se acostumou a ver imóveis vizinhos pouco a pouco darem lugar a prédios. "Mas nunca tinha visto um quarteirão inteiro sumir", conta ele. "É muito agressivo."

Essa quadra fica no perímetro formado pelas Ruas do Livramento, Joinville, Charles Camoin e Curitiba, perto do Parque do Ibirapuera, na zona sul. "Soube que ali será levantada mais uma torre luxuosa residencial." Sim, mais uma, porque na frente da padaria de Saba, que fica na Rua Pirapora, paralela à Rua do Livramento, um prédio quase no fim da construção tem apartamentos de 407 m² a 891 m². A torre de alto luxo, com unidades a partir de R$ 5,3 milhões, ocupa mais da metade do quarteirão. Poucos metros adiante, há um outro terreno cercado, esperando mais uma torre subir.
Esse processo ocorre em outros bairros. Em Perdizes, por exemplo, incorporadoras também têm derrubado quadras inteiras ou quase inteiras de uma só vez. "São bairros que tiveram o valor do metro quadrado muito valorizado. Costumo dizer que o Paraíso pegou emprestado o valor do metro quadrado dos Jardins e Perdizes, o de Higienópolis", diz o diretor da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp), Luiz Paulo Pompeia. "Mas, para que a obra compense, o incorporador precisa de grandes extensões."
Para se ter ideia da valorização dessas áreas no últimos dois anos, o preço do metro quadrado subiu de R$ 11,6 mil para R$ 14,4 mil no Paraíso, bairro hoje considerado pelos construtores como uma extensão dos Jardins. "Os incorporadores estão famintos. E há muito proprietário desavisado, que recebe uma oferta pela casa pouco acima do valor do mercado. Ele pensa que está ganhando dinheiro, mas está perdendo. Depois da demolição de seu imóvel, o terreno livre atinge um valor muito superior ao que foi pago", alerta Pompeia.
Mudança de perfil. No momento em que as casas de classe média dão lugar a torres luxuosas, o perfil sócio econômico se eleva. "Nunca presenciamos uma mudança tão rápida de tipo de morador", diz Miguel Antônio Della Rosa, de 70 anos, que tem uma importadora de material médico nas redondezas. "Antes, as pessoas cuidavam das ruas", diz ele, que chegou a revitalizar uma das praças da região com a ajuda dos vizinhos. "Mas hoje os quarteirões estão murados e na calçada só tem segurança vestido de preto ", lamenta.
A homogeneização do perfil socioeconômico de uma região nem sempre é bem vista. "Acho nefasto acabar com a diversidade de uso e de classe social", diz Fábio Mariz Gonçalves, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). "Quando você derruba casas com padrões diferentes, a padaria, a mecânica e outros pequenos negócios, a rua perde a vida. Ela fica vazia e insegura." Para Mariz, o ideal seriam prédios de uso misto e modelos como o Conjunto Nacional, na Avenida Paulista.
Memória. "Não há dúvida de que a verticalização é um processo natural da urbanização. Mas arrasar um quarteirão significa que a cidade está sendo desconsiderada", diz o arquiteto Guto Requena, especialista em habitação e design contemporâneo. "É um processo que apaga os resquícios de memória do paulistano. E a cidade fica sem identidade."
De sua lanchonete no Paraíso, Saba lembra da época em que os vizinhos da Rua Pirapora pediam para a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) fechar a rua para a tradicional festa junina. "Os vizinhos se foram e, em um piscar de olhos, as casas sumiram", diz. "E a gente tem de engolir isso e se acostumar."

terça-feira, 19 de junho de 2012

Um casarão que sumiu

Casarão centenário, que um dia abrigou uma escola chamada Florence, da família do desenhista francês Hercules Florence que radicou-se no Brasil após participar de uma expedição pelo interior de vários estados brasileiros no início do século retrasado. Foi ao chão em janeiro para dar lugar a um medonho empreendimento comercial


quinta-feira, 14 de junho de 2012

São Paulo, a cidade dos sonhos.



São Paulo é fruto dos sonhos. Para cá vieram muitos em busca de uma vida melhor. Há mais de um século, ferrovias ligaram o interior à capital, para o trem seguir até o porto de Santos, exportando café e trazendo a riqueza de alguns barões da cidade. São Paulo crescia. Décadas mais tarde, sonharam alguns com uma cidade maior, mais moderna, mais rica. Rios foram retificados, canalizados, escondidos. Córregos sumiram pra debaixo das ruas e foram esquecidos. Lembrados apenas durante as enchentes, no movimento natural de suas águas. Mas em horas como essas, poucos sem lembram disso.

E o sonho da cidade maior tomou os espaços. As ruas cortavam as chácaras, as obras tomavam as ruas, projetos foram implantados e a cidade mudou. Na luta pela terra urbana, as ruas foram invadidas pelos carros, símbolo de poder e de status. O modelo importado do sonho americano tornou-se o pesadelo dos bondes e o coletivo foi perdendo lugar para o transporte individual. Elétrico, não poluente, o bonde deu lugar ao automóvel poluidor. Mas num tempo em que fazer fumaça com cigarro era atraente e glamoroso como no cinema holiudiano, os carros e seus escapamentos não eram vistos como vilões. Pelos cinemas de rua, que existiam em muitos bairros, chegavam vilões e mocinhos com novidades da moda, da cultura, do mundo. Sonhavam as mulheres com seus galãs preferidos, joias, penteados, vestidos. Sonhavam os homens com suas musas provocantes.

Para o sonho ficar ainda melhor, JK decidiu que a indústria do automóvel deveria vir aqui para ficar. E ela veio. E ficou. Trouxe com ela o tal progresso, o emprego, o crescimento econômico. Mas como sonhos não são necessariamente planejamentos minuciosos, para muitos se tornou pesadelo. O operário produzia carros, mas não tinha onde morar. Acordando cedo, sem sonho, trabalhadores construíam pontes, viadutos, túneis e rodovias. 
E por falta de tempo pra sonhar, foram morar nas favelas que cresciam dentro, ou junto da cidade. O motorista sonhava com largas avenidas para trafegar. E ruas foram alargadas, asfaltadas, impermeabilizando a cidade, sobrecarregando os poucos rios cujos leitos restaram de papo pro ar.  Espaços verdes sumiam em nome do progresso viário. Aquelas linhas de bonde ficaram definitivamente pra trás. Fáceis de serem implantadas, fáceis de serem desativadas.

Tempos depois a população precisava chegar em casa mais rápido, pois foi morando cada vez mais longe do centro. Por crescer sempre e sempre desordenadamente, São Paulo sonhou com um trem subterrâneo. E o sonho tornou-se real, lentamente. Tão lento quanto a incompetência de vários governos que ainda correm atrás, ou fingem que correm, da tão sonhada mobilidade urbana. E o bonde, tão mais barato de se fazer e operar nem sonha voltar pra cidade...

A cidade de hoje ainda sonha, e muito. Mas quem vive de sonho não enche a barriga. E entre a fantasia e a realidade, homens de negócios preferem a segunda opção. Construtores, incorporadores, engenheiros, arquitetos, demolidores não precisam mais sonhar. Acharam o homem de seus sonhos, e fizeram-no prefeito. Perfeito, bem fuleiro, conivente, ladino, irresponsável, na medida certa de seus devaneios. E bem acordados, constroem a cidade que sonharam. Uma cidade toda deles. Enriquecem assim, às custas da gente. Pagamos cada centavo desse pesadelo que se tornou a cidade. Pagamos no trânsito parado, ou violento. Pagamos morrendo na poluição, na falta de verde. Na falta recorrente de segurança, debaixo da sombra do prédio irregular que a corrupção permitiu subir sobre nossas cabeças. Pagamos pela falta de educação, democracia, cidadania, inteligência. E o sonho da casa própria, mola propulsora de muita insanidade econômica, alimenta a máquina da perversidade urbana. Favelas não se urbanizam mais, se incendeiam. Jornais, lacaios da propaganda imobiliária, se calam. E lucram também. Os bairros centrais, saturados, não suportam mais prédios, porém mais prédios são construídos. Um novo edifício que sobe ao lado de sua casa, acaba com seu sono, com seu bairro, com sua história. Se trocassem parte desses sonhos egoístas por planejamento de verdade para todos, a cidade teria uma realidade bem diferente. Está mais do que na hora de realizarmos a cidade que sonhamos. Humana, saudável, democrática, bonita, segura. Sem a selvageria do mercado imobiliário, dessa fúria predatória que esta arrasando uma enorme cidade.

domingo, 10 de junho de 2012

O corretor de imóveis que governou SP


A especulação imobiliária atinge níveis inimagináveis em São Paulo, o corretor imobiliário Gilberto Kassab, devolve os favores aos seus financiadores de campanha sem qualquer critério passando por cima da lei: “Os títulos permitem à iniciativa privada construir acima da metragem estabelecida na lei de zoneamento”.

A prefeitura não estabelece critérios para essa compactação populacional. Não se importa em melhorar as precárias estruturas existentes e autoriza indiscriminadamente as obras das construtoras, acentuando ainda mais esse processo neste período de apagar das luzes da administração de Gilberto Kassab.  ”O novo estoque residencial ainda representa 59% dos 3,11 milhões de m² edificados em toda a capital paulista em 2011 — foram 443 prédios no ano passado, com 38.149 apartamentos, segundo a Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp)”.

Os empreendimentos priorizam uma faixa específica de consumidores, proibitivos para a classe C, tornando os bairros centrais, locais com maior oferta de empregos, escolas, postos de saúde, transporte e segurança, inacessíveis para o cidadão de renda menor. Ou seja, não há preocupação com a mescla social, descaracterizando por completo os bairros atingidos, tornando esses locais eleitos pela especulação imobiliária, um oásis de riqueza dentro da cidade.

Dessa forma, os novos moradores que chegam a esses empreendimentos, com seus automóveis particulares, convênios médicos, instalando-se em condomínios com segurança privada, não trazem muitas queixas à prefeitura. Eles dependem bem menos dos aparelhos municipais. O pobre por sua vez, cada vez mais distante do centro, perde tempo nos trens e no metrô em colapso e pouco comove a opinião pública elitizada com seus apelos por segurança, hospitais, escolas. Essa é a cidade preconizada pelo consórcio Serra/Kassab, em mais uma frente de batalha no seu desenfreado processo higienista.

Edificações antigas vem abaixo, prédios históricos como o casarão da rua João Moura, vão para a caçamba passando por cima de liminar da justiça. Famílias inteiras são retiradas de favelas em inúmeros incêndios suspeitos. Não são exigidas as necessárias contra-partidas para minimizar o impacto dessas obras. “A dúvida de especialistas, porém, é se a chegada de novos prédios vai se reverter em melhorias para a população, o que não ocorreu nos primeiros 17 anos da Operação Urbana Água Branca. O corredor comercial que se consolidou na última década na Avenida Francisco Matarazzo ainda não se reverteu em obras e benefícios viários e urbanísticos, como previa o projeto original de 1995.”
Não vejo a oposição mobilizada e com força suficiente para tentar barrar as infames operações urbanas, que tem na Nova Luz, um símbolo de desrespeito e agressividade contra cidadãos paulistanos e seu patrimônio arquitetônico.

Texto publicado no site Viomundo em 17 de abril de 2012